SEGUNDA PARTE: ENTENDA O CIRCUITO (DENTRO) FORA DO EIXO, POR PASSA PALAVRA

24 02 2013

Segunda parte do texto “Existe consenso em SP? Reflexões sobre a questão da cultura”, por Passa Palavra:

Existe consenso em SP? Reflexões sobre a questão da cultura

 

Os novos empreendimentos culturais em São Paulo atuam em simbiose com as obras dos velhos agentes do capital imobiliário, conferindo uma roupagem colorida a um processo que é segregador e violentoPor Passa Palavra

Os novos capitalistas da cultura e a velha especulação imobiliária

As cidades brasileiras permitiram uma degradação dos seus centros. Agora nós fazemos o esforço inverso, de valorizá-lo. A saída para isso é gerar um programa de eventos durante todo o ano. A cidade tem mais de 10 milhões de habitantes, é hoje o maior destino turístico do Brasil. (Juca Ferreira, novo secretário de Cultura de São Paulo, aqui)

Há um momento em que os interesses do novo empresariado da cultura entram em sintonia com os interesses dos bons e velhos capitalistas de sempre.

Na dia-a-dia da cidade, isso se faz sentir pela escolha que parte de novo empresariado da cultura faz por atuar em localidades em vias de gentrificação. Para quem não sabe, gentrificação designa um processo de modificações urbanas que se destinam a banir a população pobre que tradicionalmente ocupa uma região da cidade e, assim, valorizar o seu entorno. Sobre isso, mais uma vez, os últimos acontecimentos na Praça Roosevelt, em São Paulo, são bastante significativos.

Desde 2004, pelo menos, agentes do velho capital imobiliário (incorporadoras, construtoras, imobiliárias e poder público) atuam em conjunto para promover a valorização daquela área, que compreende a região também chamada de Baixo Augusta. Nesse sentido, a própria reforma da praça, inaugurada pela Prefeitura no final do ano passado, foi um primeiro passo importante. Para tanto, precisou usar de diversos expedientes violentos, como a expulsão dos moradores de rua e a retirada de uma tradicional feira que acontecia há 60 anos no local. Apesar de alguns protestos, o projeto mostrou-se bem sucedido e já começa a produzir os efeitos desejados. A reforma promoveu uma elevação geral do preço dos aluguéis, de forma que pequenos comerciantes e antigos moradores vêem-se obrigados a sair do local por não suportarem os novos custos. (ver aqui)

“A Augusta está mudando de perfil. Daqui a um tempo, com essas obras entregues, terá o seu entorno valorizado. A boate vai melhorar a fachada, o bar vai virar restaurante e a padaria, uma butique de pães”, disse a diretora de atendimento da imobiliária Lopes a uma reportagem da Folha de S. Paulo, poucos dias após a realização do festival Existe Amor em SP. O curioso é que atuam também em favor do processo de gentrificação justamente estas novas empresas do ramo cultural alternativo — dentre elas, o próprio Studio SP, que se afirma como uma atração noturna que “se transformou em um dos pontos de referência mais importantes da revitalização da área que ficou conhecida como Baixo Augusta”. (ver aqui)

É que a consolidação do local enquanto referência de balada [noitada] e atrações culturais alternativas introduz na região uma espécie de aura cult que pressiona pela elevação geral dos preços não só dos aluguéis, mas de todo e qualquer serviço ou mercadoria oferecidos na região; repelindo, agora por via pacífica, aquela parcela da população da cidade que não possui condições de arcar com este padrão de consumo.

Em sentido muito parecido apontam as ações do Festival Baixo Centro, realizado pela Casa da Cultura Digital (outra agremiação empresarial mais voltada para área da comunicação e cujas parcerias são muito esclarecedoras (ver aqui), que diz pretender ocupar com festa os espaços públicos e “ressignificar” outros bairros da região central da cidade, por sinal, também em vias de gentrificação.

Como a fala do novo secretário de Cultura de São Paulo deixa entrever, no conjunto, existe uma corrida para marcar posição na nova setorização que está em curso na cidade, uma vez que a realização da Copa de 2014 deverá consolidar o lugar de São Paulo no circuito de capitais turísticas mundiais. Por trás destas ações com nuances um pouco diferentes, mas sobretudo complementares, está em jogo uma verdadeira transformação urbanística que tende a fazer de todo o centro da cidade um polo empresarial especializado em cultura e entretenimento; tal como o concebido pelo inaugurador de museus Andrea Matarazzo. Assim, por mais irônico que pareça ser, os novos empreendimentos culturais paulistanos atuam em simbiose com as obras dos velhos agentes do capital imobiliário, conferindo uma roupagem colorida a um processo que é, como sabemos, segregador e violento.

Bruno Torturra (Revista Trip) e Pablo Capilé (FdE) dialogam com Juca Ferreira (secretario municipal de Cultura) e Haddad, novo prefeito de São Paulo.

O interesse do Fora do Eixo nos movimentos sociais

Se coletivos como o Fora do Eixo atuam como organizações empresariais que fazem uso da produção simbólica alheia para barganhar com governos e empresas financiadoras o mapeamento, a articulação e a mobilização de grupos e pessoas, ora, nada mais vantajoso do que irem buscar a matéria-prima de seus negócios diretamente na fonte, ou seja, no universo dos movimentos sociais. Afinal, sejam pequenos, médios ou grandes, estes “territórios em rede”, no linguajar de Capilé, constituem plataformas prontas ou semiprontas para a exploração de todos aqueles elementos essenciais para a sua atividade.

Em primeiro lugar, porque, apesar de todos os seus problemas e limites, a esquerda (principalmente a sua juventude) se caracteriza por ser um meio social bastante profícuo para a geração de símbolos, expressões e anseios de mudança. Como para o Fora do Eixo pouco importa a base concreta de surgimento destes símbolos, estes podem ser apropriados abundantemente. Seja Che Guevara, maconha, ecologia, Maradona, amor livre, causa indígena, MST, Hugo Chávez, cineclubismo, Jimi Hendrix, periferia ou carnaval de ruas — tanto faz.

Só que, tão importante quanto este agregado confuso de significantes, interessa aos expropriadores de cultura apoderarem-se também do conjunto de saberes operacionais, mapeamentos, informações sobre o terreno de atuação, redes de relações políticas e contatos acumulados pelas mais variadas experiências de movimentos sociais. É isso que, novamente na linguagem dos nossos novos empreendedores culturais, chama-se “tecnologia social”.

Fora do Eixo dialoga sobre “tecnologia social” com a Fundação Vale.

Não é à toa, portanto, que, tão logo tenha aportado nesta capital, a militância empreendedora do Fora do Eixo tenha já percorrido uma variedade de movimentos sociais, populares e/ou de cultura com o intuito de colocá-los sob o seu guarda-chuva; fazendo o mesmo em âmbito nacional. E, dessas experiências, não são poucos os relatos de que sua aproximação tenha sido problemática; mas também não são poucos os casos em que parecem ter obtido bastante sucesso.

Tendo em mãos essa riqueza simbólica aliada à “tecnologia social” extraída das iniciativas de luta, o Fora do Eixo pode, então, oferecer seus serviços a empresas e governos em troca dos editais de financiamento.

Um parêntesis: a atração dos movimentos sociais, coletivos e pessoas pelo Fora do Eixo

Nem todos os grupos e pessoas que aderem aos projetos dos novos empresários da cultura o fazem por convicção ou clareza política — e aqui referimo-nos apenas às pequenas organizações de esquerda, pois as demais sabem muito bem os caminhos que optaram por trilhar.

Pablo Capilé dialoga com João Pedro Stédile (à esquerda[?]), da direção nacional do MST.

O Fora do Eixo e seus congêneres encontram um terreno bastante fértil de reprodução entre aquela juventude que carrega consigo algum sentido de indignação, crítica e protesto contra o atual estado de coisas, mas não encontra um projeto político-estético no qual possa se empenhar. Pesa também a carência de grande parte dos coletivos e pessoas ligados à cultura, que dependem materialmente da sua atividade para a própria sobrevivência.

Paralelamente, há já algum tempo que as organizações de esquerda não conseguem construir canais de diálogo eficientes e duradouros para viabilizar estruturas para este feito, tampouco comunicar e exprimir o seu ideário através deles. E isso não acontece só porque tenhamos perdido o senso de humor (e ainda bem que nem todos perdemos, veja aqui . Ao contrário, esta situação é reflexo do fato de grande parte de nós, à esquerda, termos abandonado a capacidade de ler as transformações políticas, sociais, econômicas e tecnológicas que acontecem diante de nossos olhos, e então expressá-las artisticamente. E se considerarmos o significativo grau de crescimento por que passa a economia brasileira (em que pesem os usos políticos que são feitos deste dado, vide o mito da nova classe C), mais agravante se torna a questão. Com sua visão empreendedora, Capilé fala para “o jovem brasileiro” que “está tão animado que está gastando o que não tem”; nós, se não nos repensarmos profundamente, corremos o risco de continuar batendo cabeças.

Com quem dialogar em São Paulo?

Papagaio de pirata: Capilé se esforça para colar sua imagem às da Ministra da Cultura Marta Suplicy, da Presidenta Dilma Rousseff, após dialogar com outros ilustres da velha indústria cultural, em Brasília.

É neste quadro que deve ser pensada a realização do evento intitulado Existe diálogo em SP, (que não por acaso parafraseava o slogan do evento da Praça Roosevelt), convocado pelo novo secretário municipal de Cultura da cidade de São Paulo, Juca Ferreira, nomeado pelo recém-empossado prefeito, Fernando Haddad. Juca e sua equipe convidaram artistas, produtores, realizadores, ativistas e articuladores culturais para uma reunião aberta em que seriam apresentadas propostas para a construção de políticas públicas para a área.

Para quem não sabe, Juca Ferreira foi secretário-executivo do ministério de Gilberto Gil (2003-2008) e, em seguida, ele mesmo ministro da Cultura do governo Lula (2008-2010). Durante o tempo que ficaram no comando do MinC estimularam, sobretudo, as políticas em torno da cultura digital e dos Pontos de Cultura. Tais foram as bases que alimentaram o crescimento e a expansão dos empreendimentos do Fora do Eixo.

Uma rápida olhada na movimentação das redes sociais à véspera do encontro, e pesquisando um pouco quem são as pessoas que foram chamadas a compor o atual gabinete, é suficiente para sacar que os membros do Fora do Eixo terão papel importante nesta nova gestão, e com eles a constelação de novos empresários culturais que atuam na cidade.

Juca Ferreira dialoga com artistas e agentes culturais paulistanos; ao fundo, Rodrigo Savazoni, um dos fundadores da Casa da Cultura Digital e, hoje, chefe de gabinete da secretaria de cultura.

Um dos objetivos anunciados do diálogo foi o de abrir um primeiro contato para mapear demandas e sugestões dos grupos culturais paulistanos com vistas a constituir um Conselho Municipal de Cultura, que ajude a formular um Plano Municipal de Cultura e a rever diretrizes do Plano Diretor da cidade.

Eis que pesa sobre os fazedores de cultura da cidade, neste momento, o desafio de bem avaliar o significado político desta convocatória e definir seu posicionamento perante ela; ressaltando que definir um posicionamento não implica necessariamente optar pela participação ou pela não participação. Mais relevante do que isso é ter clareza do que se tem por objetivo e de como se relacionar com o assunto.

Algumas questões e uma opinião

Uma primeira questão que se coloca diz respeito às condições e à concepção dos próprios coletivos e agentes culturais. Acreditam eles que os entraves da cultura estão ligados apenas a problemas de gestão e financiamento ou se relacionam a embates políticos mais amplos?

Para aqueles que têm como horizonte único tomar posição mais vantajosa no repasse das verbas destinadas à cultura, parece-nos que lhes será favorável participar destes espaços conciliatórios sem maiores reflexões. Afinal, uma Prefeitura do PT em São Paulo tende a ser “a menina dos olhos” do governo federal e, certamente, com a pasta da Cultura, cuidará de distribuir verbas suficientes ao ponto de reduzir bem os níveis de queixa. Porém, não é a estes que nos dirigimos.

Para aqueles que privilegiam o caráter político e assumem os desafios mais profundos da cultura, que englobam inclusive a luta pelas condições materiais de sobrevivência, é importante ter em conta que, da parte das grandes empresas capitalistas e dos governos, há enorme interesse em usufruir dos serviços prestados pelos novos empreendedores da cultura. Ainda que muitas vezes se posicionem contra setores mais conservadores da sociedade, empresas-coletivos como o Fora do Eixo fornecem às instâncias de poder elementos importantes para que estes aperfeiçoem sua engenharia de controle social.

Desde há muito que o capitalismo não se reafirma como forma social unicamente através da repressão. De tempos em tempos, as técnicas de poder precisam ser renovadas. E, ao contrário do que se poderia supor, a principal característica destas novas (ou não tão novas) engenharias de controle consiste não em manter os dominados imóveis e apáticos frentes aos problemas sociais. Ao contrário, tanto mais ela funcionará quanto mais mantiver os de baixo engajados e participativos, contanto que isto aconteça dentro de espaços políticos pré-estabelecidos. É trazendo para a luz iniciativas que antes ocorriam à sombra que as empresas e os governos asseguram a manutenção de seus privilégios. E, em se tratando de forças renovadoras, a atuação sobre a juventude ganha especial importância.

Isso talvez explique a utilidade que empresas como a Vale, por exemplo, enxergam em patrocinar projetos do Fora do Eixo e compartilhar com o coletivo “tecnologias sociais”. E talvez explique também por que órgãos governamentais progressistas têm recebido de bom grado a intermediação do Fora do Eixo e similares para a proposição de políticas públicas voltadas para a área da cultura.

Para os que, sem ignorar estas contradições, ainda assim acreditam que a participação nestes espaços abrirá possibilidade para que trabalhadores e fazedores de cultura em geral ao menos ampliem o seu poder decisório sobre assuntos mais abrangentes do planejamento da cidade, convém lembrar que estão sendo chamados a opinar sobre apenas 0,9% do orçamento total do município, talvez 2%, na melhor das hipóteses. Dentro dos quais, boa parte já está amarrada a gastos regulares no setor e ao pagamento de dívidas. Ou seja, são chamados a decidir sobre uma parcela irrisória; simbólica, se preferirem. Lembremos ainda que outras pastas decisivas no que diz respeito ao destino da cidade, como a da Habitação, por exemplo, foram deixadas aos cuidados dos tradicionais grupos políticos que há décadas determinam e se beneficiam dos investimentos imobiliários e turísticos — e não há indícios de que por aí ocorram inovações ou aberturas participativas efetivas.

A estes, cabe refletir seriamente se a eventual participação representará avanços na luta para pôr em xeque as engrenagens que criticam ou apenas um convite a celebrar o casamento entre o velho cinzento capital e o novo multicolorido empresariado da cultura.

Finalmente, uma questão-chave: o que as experiências passadas nos dizem sobre isso?


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